24 de novembro de 2014

Entrevista: Paulo Henrique Ferreira

Hoje é dia de mostrar uma entrevista que o blog fez recentemente com o autor e jornalista Paulo Henrique Ferreira, autor de Álbum Duplo – Um rock romance, publicado pela Editora Record. O livro já foi resenhado e você pode conferir a resenha AQUI.


- O livro apresenta uma narrativa leve, que facilita o leitor a interagir com a trama e os personagens. Em seu romance de estreia, você pode nos contar quais são suas influencias com relação a escrita?

Logo de cara, todo mundo associa o "Álbum Duplo" com os livros do Nick Hornby, como o clássico Alta Fidelidade. A associação é correta, porém limitada. Obviamente, o Hornby é um mestre e é uma das claras referências - assim como o Cameron Crowe, diretor do filme "Quase Famosos", outro mestre em mesclar histórias de relacionamentos com referências do rock. 

Mas se o leitor se aprofundar e fizer uma leitura um pouquinho mais sensível, vai perceber que a referência central - de estilo e roteiro - é o "O Encontro Marcado", do Fernando Sabino. 

O Eduardo Marciano, protagonista do romance, é citado várias vezes no "Álbum Duplo". De certa forma, ele e o Marlo Riogrande tem uma história parecida, só que em épocas diferentes. 

Enquanto o Eduardo Marciano está em crise na década de 1950 (na dúvida se quer, ou não, se tornar um pai de família), o Marlo Riogrande, também está em crise, nos anos 2000, com dilemas de um verdadeiro "adultescente". 

Ambos tem a mesma faixa etária (vinte e tantos anos), as mesma angústia e medos: medo de se comprometer, medo de assumir responsabilidades, vontade de fugir de seu destino e uma falta de confiança neles mesmos, que os impede de agir com honestidade. A diferença entre eles é de geração: um sujeito do meio do século XX, o outro do início do século XXI. Cada qual com comportamento e questões inerentes à sua própria época. Por isso, o "Encontro Marcado" é, declaradamente, a maior influência de "Álbum Duplo". 

Outras influências importantes são "O apanhador no campo de centeio", do Salinger, sobretudo nas páginas iniciais, com a verborragia do Marlo (que, aliás o João Paulo Cunha, crítico do Estado de Minas, identificou muito bem); e "O Retrato de um artista quando jovem", do James Joyce, sobretudo naquele final em aberto, quando o Marlo invoca a vida - assim como fez Stephen Dedalus. 

Estas são as principais influências literárias, embora muitas outras também tenham sido usadas e mencionadas no livro, em uma espécie de tributo a autores que eu amo, como Hemingway, Guimarães Rosa, Henry Miller, C.S. Lewis, Salomão, Apóstolo Paulo de Tarso, entre outros. Além do próprio Machado de Assis, para mim, a influência inescapável de todo e qualquer escritor brasileiro. 


- O que mais chama a atenção são os temas abordados no enredo, como a questão dos relacionamentos na modernidade, valores, drogas, sexo e afins. Qual a mensagem principal que você quis repassar ao leitor?

A mensagem de amadurecimento, de virada de chave. É um romance de formação dividido em duas partes, que representam a dualidade inevitável em qualquer processo de amadurecimento. Sobretudo no processo de crescimento de um menino, que uma hora tem que virar homem. E, como todo menino, o Marlo resiste, foge, escapa, faz concessões, faz qualquer negócio para não encarar a vida de frente, tudo para não virar homem de verdade. E é nesta hora o caos emerge. 

Afinal, ele magoa a Marcela, uma mulher de verdade. Ele se comportou como um garoto diante de uma mulher, igualzinho à canção do Leoni. Só quando ele vislumbra tudo isso, sua irresponsabilidade, limitações e idiotices, que ele começa a querer crescer, perceber que tem que virar a chave para uma vida adulta e lúcida. 

É aí que o livro entra na segunda parte, mais reflexiva, de confrontos e de busca pelo perdão. Ele abre mão de suas ideias fracas, aceita que foi um babaca e deixa o tempo agir, desta vez sem sabotar os planos de Deus. Aí uma luz no final do túnel aparece. Sinceramente, gostaria que ele aproveitasse a segunda chance e virasse homem de uma vez por todas. Chega de molecagem, né? 

- Muito bom poder ler um livro acompanhado de uma playlist, estas que são citadas ao longo dos acontecimentos. (Confira) Qual a sua estratégia principal ao escolher as músicas para dar sentido às referencias da cultura pop?

As 51 faixas sugeridas no livro são músicas que eu conheço bem, de artistas que eu amo. E elas foram aparecendo no decorrer da narrativa. A partir do momento que a fórmula da história estava pronta, as músicas se encaixavam durante a redação. 

Por isso resolvi fazer associações diretas e cruas, afinal é rock and roll. Na hora da raiva de Marlo Riogrande, vinha naturalmente um Rolling Stones. Nas drogas, The Doors. Na sacanagem, Lou Reed. No quebrantamento, Nick Cave. E por aí vai. 

Então, de certa forma, foi realmente uma trilha sonora, pois dava sustentação à história na medida que ela ia sendo escrita. 


- O personagem principal da trama, Marlo Riogrande, comete um erro e por isso acaba perdendo a namorada Marcela. Ele se sente derrotado e o leitor consegue perceber claramente o seu estágio de declínio. Você teve alguma referencia para a construção deste protagonista?

Acho que foi Tolstoi quem disse que se alguém quer ser universal, que comece a pintar sua própria aldeia. Então, se você quer capturar e escrever algo com precisão, tem que buscar referências próximas para ajudar a compor um cenário realista. 

Por isso, existem referências autobiográficas no "Álbum Duplo", como o personagem saído do interior, a orfandade materna, o gosto pelas ciências humanas e, obviamente, as referências de rock, filmes e livros. 

Mas seria muita pretensão escrever algum autobiografia e, principalmente, a história seria muito limitada. Por isso, procurei extrapolar para a ficção, para transcender, sem sombra de dúvidas, qualquer limite autobiográfico para, assim, o romance ganhar sua própria estatura. 

Então pisei fundo no acelerador e criei um personagem que carrega um pouco de mim, mas também um pouco de amigos e outras histórias conhecidas. Além disso, misturei como referência histórias de meus heróis prediletos (geralmente sujeitos complicados) e, principalmente, muito do Lou Reed, o "muso inspirador" do Marlo Riogrande. 

O Lou Reed, eu diria, é um dos protagonistas incidentais da história, pois é a principal influência de nosso personagem que, claro, fracassa miseravelmente ao tentar ser como o tio Lou. Afinal, o Lou Reed é único. Já o Marlo é um cara razoavelmente normal, brasileiro, que estudou humanidades, tentando começar a vida e, acima de tudo, bastante inseguro e atrapalhado. Um cara bem comum, na verdade.

- A leitura proporciona muitos questionamentos sobre o rumo de nossas próprias vidas diante de tantas duvidas e sentimentos contraditórios. O que você tem a dizer a respeito dessas fases de comportamento? Seria uma consequência de uma ação ou de vários outros fatores?

Acho que, no fundo, tem a ver com valores. Isso é relacionado com índole, família, educação, ambiente social e busca espiritual. 

São muitos fatores que definem o caráter de uma pessoa e como ela vai agir nas bifurcações da vida. Afinal, todos nós temos e teremos momentos de crise, no sentido de questionamentos, de momentos chaves, que podem se tornar oportunidades para o crescimento. Ou momentos de quedas definitivas.

O Marlo Riogrande, ao meu ver, apesar de ter sido um menino babaca, é um personagem de bons sentimentos. Ele entende que errou. Ele entende que tem que buscar o perdão, encarar de frente a situação para crescer, para deixar de ser bobo. Neste sentido, ele é humilde e quer se corrigir.

Isso, ao meu ver, já é um grande diferencial. Porque a maioria das pessoas não reconhecem seus erros. Por isso que o mundo está assim, moralmente decadente, um lugar cada vez mais hostil para se viver. Porque as pessoas são babacas e continuam assim, sem o menor pudor. Independente de gênero, cor, classe social, profissão, opção sexual, religião, time de futebol... Independente de qualquer coisa, a maioria das pessoas continua julgando tudo e a todos, convictos de sua própria opinião. Não param para pensar, não desenvolvem sensibilidade, não se arrependem. 

Continuam se afundando na própria hipocrisia, na certeza absoluta de seu ponto de vista, seguros de suas perversidades. Em tempos de twitter e redes sociais, todo este lamaçal fica mais explícito ainda, tamanha a insensibilidade das pessoas que deixam transparecer seus preconceitos e iniquidade, sem o menor pudor.


O problema central é que todos nós erramos e precisamos crescer, melhorar. Se pararmos de julgar os outros e olharmos para nós mesmos, já estamos contribuindo bastante para tornar este mundo um lugar menos tenebroso. E acho que esta foi a grande virtude do Marlo, entender que o problema estava nele mesmo, somente nele. 

Espero que as leitoras e leitores percebam a essência deste romance, que é sobre arrependimento, crescimento e perdão. Só quem conhecer o perdão de verdade - seja perdoando ou sendo perdoado - pode ser humildade de espírito. E só os humildes de espírito podem conhecer o verdadeiro significado da palavra "Amor". 

- Você já tem outros trabalhos em andamento? Qual a sua agenda para Álbum duplo? Compartilhe conosco seus planejamentos.

Sim. Tem um novo romance em fase final de redação, que também fala de virada de chave. 

Mas enquanto o "Álbum Duplo" fala do amadurecimento de um indivíduo, o próximo romance é sobre a virada de chave de toda uma geração. Uma geração sem eira, nem beira, que já vive em um novo século, mas com os modelos e o legado do século anterior. 

Justamente esta nossa geração - da faixa dos 25 aos 45 - que está sem um papel claro na história. Está perdida entre um século que já acabou - o XX -, e um que não começou, o XXI. Até porque, os modelos e estruturas do século passado ainda vigoram, pois a geração que construiu este século continua ativa, saudável e comandando os processos (e o dinheiro). 

Já a geração que deveria fundar os modelos do novo século - a nossa - não sabe o que fazer, enquanto o tempo passa rápido e confuso. Estamos vivendo em um abismo entre um tempo que já deveria ter acabado e um século que ainda não começou de fato. 

E, claro, o novo romance terá algumas referências pop e de algumas músicas durante a narrativa. Porém, a relação com a música não será tão visceral, não será um "rock romance", como o "Álbum Duplo". 



Um comentário:

  1. 51 faixas? nossa, que demais!!
    adoro livros que vem acompanhados por playlist... e esta parece estar incrível, recheada de musicas boas :D
    ainda não li este livro, mas tenho ele na minha lista de desejados e já fiquei mega curiosa para ver este próximo trabalho do autor!

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